Profissionais do Secretariado do Sexo Masculino

Frequentemente tenho recebido e-mails do Sinsesp — Sindicato das Secretárias do Estado de São Paulo — solicitando minha colaboração em pesquisas universitárias sobre profissionais do secretariado do sexo masculino.

As perguntas quase sempre giram em torno dos mesmos pontos. Pensando nisso, decidi publicar aqueles que considero os aspectos mais críticos para nós, homens: os olhares que nos são lançados, devida e indevidamente, desde a formação acadêmica, passando pela difícil inserção no mercado de trabalho, até a efetiva atuação profissional.

Antes de iniciar minha formação em Secretariado, eu trabalhava como professor de educação básica. Era uma atividade que me deixava muito desmotivado, sobretudo pela baixa remuneração e pelo desmantelamento da profissão no Brasil.

Decidi, portanto, que era hora de mudar.

Tracei uma linha de ação relativamente simples: buscar formação em uma área que me conferisse conhecimento prático e, ao mesmo tempo, capacidade de interseção com outras áreas. Foi assim que cheguei ao Secretariado Executivo.

A etapa seguinte seria especializar-me em Finanças.

O que eu não esperava era que justamente a Aviação Civil seria a área mais interessada em meu currículo.

Acabei trabalhando durante 15 anos na Aviação Civil.

A vida, às vezes, tem suas próprias secretárias.

Paralelamente, e não oficialmente, consegui trabalhar também com Finanças. Considero-me, na prática, um homem com dois empregos — e isso graças ao curso de Secretariado, à autodisciplina e à força de vontade.

Fiz a minha própria sorte, apesar das portas que não foram abertas quando me apresentei como secretário executivo.

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Por que um homem escolhe Secretariado?

O ramo do Secretariado Executivo apresenta diversas vantagens para o estudante: formação rápida, obtenção de título de nível superior em, no mínimo, dois anos, além do conhecimento diversificado de várias áreas acadêmicas.

Em princípio, a pergunta costuma ser mais polida:

— Por que um homem opta por este curso?

A resposta, também polida, é bastante simples: pelos mesmos motivos que levam qualquer estudante a optar por outra carreira — identificação com o trabalho e/ou busca de um futuro profissional e financeiro promissor.

No meu caso, havia ainda uma razão adicional: eu queria uma formação prática, abrangente e capaz de dialogar com outras áreas do conhecimento.

Depois, porém, as perguntas tornam-se mais fatídicas.

E são justamente elas que mais assombram a vida do sexo masculino no Secretariado.

A mais frequente:

— Já sofreu ou sofre algum tipo de preconceito?

Inexoravelmente, sim.

O outsider

Qualquer homem que ouse adentrar essa área será alvo frequente de preconceitos, inclusive por parte de professores, colegas de classe, colegas de trabalho e profissionais de Recursos Humanos, ainda que muitas vezes de maneira velada.

Durante minha formação, frequentemente tive a impressão de estar dentro de um clube feito por mulheres e, em certos momentos, apenas para mulheres.

As aulas eram dirigidas às “futuras secretárias”.

Eu era o outsider.

O próprio Sindicato das Secretárias do Estado de São Paulo parecia, em determinado momento, representar muito mais o sexo feminino do que a profissão propriamente dita.

Em 2006, salvo engano, houve uma mudança de nomenclatura para “Sindicato das Secretárias(os) do Estado de São Paulo”. A intenção era evidentemente incluir os profissionais homens. Linguisticamente, contudo, a solução me parecia pouco adequada à norma culta da Língua Portuguesa.

Boa intenção, pouca elegância.

E, apesar da mudança, eu não conseguia me sentir representado.

Isso nos leva a uma constatação curiosa: às vezes, ser formalmente incluído não significa exatamente sentir-se incluído.

Homens podem ser tão bons quanto mulheres?

Existe ainda uma questão mais delicada.

— Mas os homens podem exercer essa função tão bem quanto as mulheres?

Evidentemente que sim.

Mas aqui faço uma ressalva que, talvez, nem todos apreciem.

Homens tendem a ser ultrafocados e, nem sempre, percebem as nuances e os detalhes do ambiente ao seu redor. Isso pode constituir uma desvantagem bastante concreta no trabalho secretarial.

As mulheres, em contrapartida, demonstram maior eficácia no gerenciamento do ambiente secretarial.

Não é de se estranhar, portanto, que elas dominem a profissão.

E, nesse aspecto, com o devido mérito.

Aliás, pergunto-me se o uso da genitália no exercício desta ocupação é realmente necessário.

A pergunta pode causar alguma repulsa. Entretanto, é justamente isso que, inocentemente, se esconde por trás da pergunta anterior.

O curioso é que, quando a questão é apresentada dessa maneira, ela imediatamente parece absurda.

Talvez porque seja.

Mulheres, não sejam “machistas” conosco

Há, entretanto, uma diferença entre reconhecer uma predominância profissional e aceitar a exclusão de um grupo.

Lamentavelmente, ao menos no Brasil, existe um forte sexismo no meio corporativo e dentro da própria área do Secretariado.

É um tema delicado, controverso e polêmico.

Nós ainda vivemos em uma sociedade machista. E, amiúde, as próprias mulheres acabam reproduzindo comportamentos semelhantes.

Não parece haver nada particularmente progressista em substituir um preconceito por outro.

Minha impressão, durante aquela época, podia ser resumida em uma frase bastante simples:

“Homens não são interessantes. Homens secretários, menos ainda.”

Na maioria das vezes, eu percebia que os departamentos de Recursos Humanos estavam à procura de modelos, e não de profissionais gabaritados.

Era frustrante.

Imagine aquele executivo, mau caráter, que, em detrimento da imagem profissional da secretária, a sonda com olhares nada profissionais.

É justamente por isso que existe um forte movimento de moralização e de instauração do respeito pela mulher no mundo empresarial.

E, nesse sentido, as secretárias executivas estão na linha de frente da batalha.

Mas há uma ironia considerável no fato de uma área que, corretamente, combate o sexismo contra mulheres reproduzir, em determinadas situações, uma espécie de sexismo contra homens.

É possível lutar contra uma injustiça sem criar outra.

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A teoria e a prática

Inegavelmente, homens e mulheres diferem entre si em determinados aspectos intelectivos e comportamentais.

A objetividade e o senso prático masculinos podem tornar-se diferenciais, dependendo da ocupação secretarial.

Por outro lado, a menor atenção às nuances e aos detalhes pode ser uma limitação objetiva para determinados aspectos da função.

Não se trata de diminuir a natureza masculina, nem de negar a competência feminina.

É justamente o contrário.

Reconheço que este é um lugar onde as mulheres são vitoriosas e, em muitos aspectos, mais competentes que os homens.

De fato, nós, homens, somos mais limitados para o Secretariado.

O problema começa quando essa constatação deixa de ser uma observação profissional e passa a servir como justificativa para excluir homens da profissão.

Agora imagine a situação inversa.

Como você se sentiria se lhe perguntassem:

— Mulheres podem ser tão boas engenheiras mecânicas quanto os homens?

Chato, não é?

O currículo que não interessava

Verdade seja dita: homens são menos meticulosos e menos apegados aos detalhes que mulheres. E isso, por vezes, faz toda a diferença em uma seleção de emprego, colocando os homens em desvantagem competitiva.

No meu caso, essa desvantagem foi bastante concreta.

Foram mais de 800 currículos enviados depois da minha formação como secretário executivo.

Resultado?

Uma única entrevista de emprego.

E, ainda assim, sem êxito.

É difícil não achar graça na matemática.

Mais de 800 currículos.

Uma entrevista.

Zero contratação.

Talvez meu currículo fosse excelente demais para ser secretário e masculino demais para ser considerado interessante.

Ou talvez o mercado simplesmente não soubesse o que fazer com um secretário executivo.

E, afinal, deu certo

Apesar de todas as contrariedades ao longo da minha formação e da tentativa de inserção na área, sinto que alcancei meus objetivos.

Hoje, olhando para trás, vejo que a formação em Secretariado acabou me levando muito mais longe do que eu imaginava.

Passei 15 anos trabalhando com Aviação Civil, área que, contrariando minhas expectativas iniciais, foi a que mais se interessou pelo meu currículo.

Paralelamente, continuei exercendo minha atividade com Finanças.

E hoje essa trajetória me levou a outro campo: sou fundador de uma startup de e-Concierge.

Ao longo desse percurso, também construí aquilo que considero mais importante fora da vida profissional: sou casado, pai realizado e financeiramente independente.

Ou seja, o Secretariado não me tornou secretário executivo.

Fez algo talvez mais interessante: deu-me ferramentas para construir uma carreira que tomou caminhos que eu não havia planejado.

Não exatamente o roteiro original.

Mas, convenhamos, a vida profissional raramente respeita o roteiro.

O importante é saber aproveitar o que aparece pelo caminho.

No fim das contas, o plano funcionou.

Apenas não exatamente como havia sido desenhado.

O recado

Se posso deixar um recado de autoestima aos futuros profissionais da área, é este:

O Secretariado é espaço para Inteligência, não para sexismos.

Não importa se você é homem ou mulher, tampouco o quão antiquadas e preconceituosas sejam as pessoas à sua volta.

Sua formação, sua disciplina e sua astúcia podem abrir portas que o mercado inicialmente se recusou a abrir.

No meu caso, algumas portas permaneceram fechadas.

Então procurei outras.

E descobri que também havia vida do lado de fora da secretaria.

Hoje, olhando em retrospectiva, talvez essa tenha sido a maior lição de todas:

uma formação não precisa conduzir você ao cargo para o qual foi originalmente pensada.

Às vezes, ela simplesmente fornece as ferramentas para que você construa o seu próprio cargo.

Sucesso!